quarta-feira, 10 de outubro de 2007

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terça-feira, 9 de outubro de 2007

Aristides de Sousa Mendes no Teatro da Trindade

«A Desobediência»
Teatro da Trindade - 11 de Outubro a 25 de Novembro
(
Largo da Trindade, 7a, 1200-466, Lisboa)
4ª-feira a sábado às 21h30 e domingo às 16h00 | M/12

No verão de 1940, quando as tropas alemãs invadiram a França, a salvação de milhares de homens e mulheres que fugiam do regime de terror instaurado na Europa pelo nazismo, dependia de um visto de trânsito para um país neutro. Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, dividido entre o cumprimento das ordens ditadas por Salazar e a sua consciência, optou por obedecer a esta e desobedecer àquelas. O resultado seria a salvação de cerca de 30 mil judeus e o seu afastamento definitivo da carreira diplomática. É esse conflito dramático, as circunstâncias em que se desenrolou e as suas dolorosas consequências, que constituem o tema desta peça, escrita em 1995, publicada em 1998, traduzida em espanhol, hebraico, búlgaro e inglês.

texto
Luiz Francisco Rebello
encenação
Rui Mendes - cenografia e figurinos Ana Paula Rocha - desenho de luz Carlos Gonçalves
interpretação
Rogério Vieira, Carmen Santos, Igor Sampaio, Joana Brandão, João Didelet, José Henrique Neto, Luís Mascarenhas, Marques D’Arede, Nuno Nunes, Rita Loureiro, Rui Santos, Rui Sérgio, Sérgio Silva e Sofia de Portugal
produção
INATEL/Teatro da Trindade 2007

Ensinar o Holocausto aos jovens

EUROPA ENTREVISTA

4ª FEIRA, 10 DE OUTUBRO - 19H05

SÁBADO, 13 DE OUTUBRO - 18H05 (redifusão)

Lisboa 90.4 FM

A propósito da edição em Portugal do livro "Ensinar o Holocausto no século XXI", de Jean-Michel Lecomte (Editora Via Occidentalis), o Europa Entrevista convida esta semana Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, para falar das ameaças da extrema-direita na Europa (como a recente profanação de campas no Cemitério Israelita em Lisboa) e do actual momento do processo de Paz no Médio Oriente.

Europa Entrevista : uma edição de Mónica Peixoto.

Emissão também disponível online em www.radioeuropa.fm / Jazza-me muito... ou através da powerbox da TV Cabo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Somos todos Judeus

«Assim que chegaram ao cemitério judaico de Lisboa, os ministros da Justiça, Alberto Costa, e da Administração Interna, Rui Pereira, foram, de kipas na cabeça, visitar as campas profanadas pelos ‘skins’ no passado dia 25. As cruzes suásticas estavam escondidas por 17 panos brancos que cobriam os túmulos em sinal de respeito pelos mortos. As pedras mais pequenas que tradicionalmente decoram as campas estavam ainda fora do sítio. Mais ninguém pode visitá-las para não invadir a intimidade das famílias.

Depois de lhes ter sido explicado como as famílias ficaram devastadas com o acto anti-semita, foram encaminhados para a cerimónia Taharat Kevurot (Purificação dos Túmulos), que visou mostrar o repúdio e indignação da Comunidade Judaica, que espera ter sido apenas um acto inédito e isolado.

Representantes das comunidades hindu, ortodoxa, bahai, católica, o alto-comissário para as Minorias, embaixador israelita, Paulo Portas, Esther Mcznick e, entre outros, o Rabi Eliezer Shai Di Martino (estes últimos da comunidade judaica) juntaram--se ontem para condenar a profanação e rezar pelos mortos incomodados.

O presidente da comunidade israelita, José Oulman Carp, afirmou que o vandalismo trouxe à memória as perseguições que o povo judeu sofreu e também o holocausto. “Portugal é uma das melhores democracias do Mundo. Esperemos que se faça justiça”, disse.

Rui Pereira criticou as atitudes racistas e discriminatórias e mostrou estar solidário. “Perante aqueles actos hoje sou judeu, somos todos. E como ministro posso afirmar que estes atentados não ficarão impunes e que não se vão repetir”, afirmou.

Solidário e crítico, Alberto Costa defendeu um estado laico, onde há liberdade e respeito por todos, e disse esperar que os tribunais condenem os profanadores. E, como Rui Pereira, afirmou que hoje “somos todos judeus”.

VÂNDALOS LIBERTADOS

O ‘Lobo nazi’, como se apresenta o skinhead Carlos Seabra, de 24 anos, vandalizou o cemitério judaico em Lisboa no passado dia 25 com João Dourado, de 16. Saltaram o muro e profanaram 17 campas inscrevendo cruzes suásticas e defecando em cima de duas delas. Foram apanhados pela PSP, mas o juiz devolveu-lhes a liberdade no dia seguinte.

PORMENORES
JUDEOFOBIA
O rabi fez questão de afirmar que a vida da comunidade judaica em Portugal e, especificamente em Lisboa, não vai parar por causa dos actos de vandalismo. E chamou à atenção para a ainda existente judeofobia.

DEPOIS DA SUKOT
A festa das cabanas – Sukot– é para os judeus o ponto máximo de alegria do ano. Terminada a festa de sete dias, onde se come em frágeis cabanas, a comunidade judaica juntou-se para condenar a profanação.

Correio da Manhã/Ângela Lopes

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Os «Protocolos dos Sábios de Sião» continuam a fazer escola...

Numa coluna de opinião no Diário dos Açores de 23/08/2007 assinada por Marcus de Noronha da Costa podemos dar conta do anti-semistismo serôdio, povoado de fantasmas, de origem monárquico-católico a propósito de uma edição crítica dos «Protocolos dos Sábios de Sião» lançada para o mercado. Conta o autor que a actuação dos judeus é que motivou o Holocausto:

«Mais uma vez acaba de aparecer nas montras das livrarias a 4ª edição portuguesa da obra famosa e muito polémica – Os Protocolos do Sábios de Sião –, editada por uma editora "fantasma", e com um metódico prefácio de Bernardino Luís Franco.
O prefaciador defende a tese de o livro em questão ter sido produzido pelos agentes da – Okhrana – (polícia secreta do czarismo russo) para lançarem a confusão nas reformas estruturais que o Czar Nicolau II queria levar a efeito.
Para Sergei Nilus, promotor da edição russa do livro em questão, os – Protocolos – foram as actas do Iº Congresso Sionista – da Basileia de 1897 que tinha como objectivo a conquista do poder politico e económico pelo judaísmo, servindo-se estes como seu "braço armado" da maçonaria.
Um facto é evidente e não necessita de demonstração, mesmo que o texto tenha sido forjado pela – Okhrana –, quem o ler atentamente pode constatar factualmente que a maioria esmagadora deste se confirmou na manipulação económica e politica da sociedade por essa minoria não integrada e super-individualizada nas nações que os acolheram e tiveram como objectivo máximo a formação do "barril de pólvora" que é o Estado de Israel.
No aspecto económico e financeiro basta pegar nos indicadores dos índices das grandes fortunas a nível mundial dos Estados Unidos e da Europa mais desenvolvida, onde são predominantes as famílias sionistas que controlam dentro do mais lúcido – capitalismo selvagem – os circuitos de riqueza dos países onde se instalaram. Claro está que estas posições privilegiadas na economia conduziram na década de 30 do século passado ao aparecimento de movimentos radicais, que precipitaram situações atrozes contra os direitos humanos que levaram à monstruosidade do – Holocausto.
Apesar do sucedido, o sionismo internacional continua a manipular brilhantemente os números das vítimas, cifrando-o em 6 milhões de judeus e eliminando liminarmente um milhão e duzentos mil opositores ao – nazismo – que vão desde católicos, protestantes, muçulmanos, ciganos, homossexuais e outros grupos liquidados impiedosamente pela ideologia do critério da – pureza da raça–!
Com o conflito latente entre o mundo árabe e Israel, o livro em causa tem sofrido inúmeras edições no Egipto, Síria, Irão, Iraque e Paquistão servindo de meio de propaganda efectiva para o radicalismo político que se desenvolve naqueles países.
Deve-se recordar que o industrial estadunidense Henry Ford divulgou em folhetim no seu jornal – Dearborn Independent – os Protocolos –, que tiveram imenso sucesso na sociedade … porque os leitores constataram que o texto correspondia exactamente às posições efectivas que o – sionismo – controlava na economia americana!
Em Portugal o livro apareceu traduzido em 1923 por J. A. Viana Peixoto e Francisco Pereira Peixoto, e logo a seguir em 1925 Mário Saa, poeta e escritor companheiro de Fernando Pessoa e dos escritores modernistas da época escreve – A Invasão dos Judeus – na sociedade portuguesa.
É evidente que os judeus em Portugal não constituem qualquer ameaça nem rácica nem economicamente, vivem normalmente, facto que não acontece nem no Brasil e especialmente na Argentina.
A presente edição que à primeira vista parece académica e muito narrativa, não passa de mais uma das múltiplas imagens do – politicamente correcto –, que o sionismo internacional e os serviços secretos israelitas desejam divulgar entre os incautos.»

Charlotte Salomon

Charlotte Salomon não é uma desconhecida no Yad Vashem que já expôs uma grande parte da sua obra. No entanto, a recente aquisição do esboço «retrato da menina» revela um novo olhar da artista sobre o Holocausto. A menina em questão Valerie Kampf era uma jovem judia inglesa que estava a passar férias, com a sua mãe, na Cote d’Azur quando eclodiu a 2ª Guerra Mundial. Valeria conta: «Encontrámos Ottilie Moore, uma milionária norte-americana, que era minha madrinha e que propôs à minha mãe levar-me para a América. A minha mãe que se preocupava com a minha segurança aceitou imediatamente e entregou-me como estava, de fato de banho e sem outro vestuário». A jovem Valerie ainda ficou algum tempo na casa de Villefranche-sur-Mer, pertença da senhora Moore, antes de cruzar o Atlântico. Foi durante esse curto período que encontrou Charlotte Salomon, uma jovem judia alemã, nascida em 1917 em Berlim, e enviada para essa localidade onde habitavam os seus tios. Marcada pelo suicídio da sua mãe quando contava apenas nove anos, as cores e os movimentos das suas obras mostravam o olhar lúcido com que Charlotte abordava a realidade. No «retrato de uma menina» que o Museu de Arte do Holocausto do Yad Vashem acaba de comprar é a doçura e a nobreza com que uma jovem de oito anos suporta corajosamente a separação da sua mãe, que Charlotte reproduz. Charlotte Salomon morre deportada em Outubro de 1943.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Um oficial do Exército alemão que salvou centenas de judeus

A história do major Karl Plagge é parecida com aquela retratada no filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg. Ela foi descoberta por um médico americano, Michael Good, que em 1999 começou a investigar quem tinha sido o nazi que salvou a sua mãe.

Plagge abrigou cerca de 1.200 judeus numa oficina mecânica, salvando-os da morte. A restante da população do gueto de Vilnius foi exterminada na Segunda Guerra.

O major alemão, que morreu em 1957, foi homenageado no Memorial Yad Vashem, o museu do Holocausto de Jerusalém.


Facto raro

O director do Yad Vashem, Avner Shalev, disse à BBC que é um acontecimento raro o museu conceder a um alemão que participou da máquina de guerra nazi o título de "Righteous Among the Nations" (Justo das Nações).

"Ele pedia cada vez mais trabalhadores (para a oficina) e fez tudo o que podia para manter as condições relativamente mais humanas", afirmou Shalev.

Plagge, serviu em Vilnius entre Junho de 1941 e Junho de 1944, onde dirigia uma oficina onde eram consertados os veículos militares alemães.

O diploma e a medalha do museu do Holocausto foram entregues ao professor Johann-Dietrich Woerner, presidente da Universidade Técnica de Darmstadt, onde Plagge estudou.

Michael Good e os seus pais estavam presentes na cerimónia, assim como cerca de 30 outros sobreviventes que foram ajudados pelo oficial alemão.

"Passei muito tempo obcecado na minha busca, aprendendo muito sobre ele e procurando que ele fosse reconhecido pelo que fez", disse Good.

A investigação foi difícil, já que o médico americano teve de juntar testemunhos de sobreviventes espalhados por todo o mundo.

Avner Shalev contou que uma das principais cartas de Plagge ao alto comando militar alemão foi descoberta recentemente nos arquivos.

"Queríamos ter certeza de que ele não tinha cometido crimes contra a humanidade, por isso é que levou tanto tempo (para a homenagem). Todos os sobreviventes disseram que ele salvou as suas vidas", disse Shalev.


Famílias unidas

O director do museu afirmou que, dos 1200 trabalhadores judeus protegidos pelo major alemão, 500 eram homens e o restante, mulheres e crianças.

Plagge disse aos seus superiores que manter as famílias judias unidas motivava os trabalhadores a render mais – uma posição que contrariava a política das tropas nazis.

Quando os soviéticos se aproximavam da capital lituana e o extermínio dos judeus foi acelerado pelos nazis, Plagge contou aos trabalhadores o que estava acontecendo, permitindo que centenas de judeus fugissem antes que fosse tarde demais.

Plagge entrou para uma lista de 20.757 homens e mulheres homenageados pelo Yad Vashem por terem salvado judeus durante a Segunda Guerra.

Há apenas 410 alemães na lista, dos quais muito poucos eram militares.

Uma das figuras ilustres da lista é Oskar Schindler, que também salvou cerca de 1200 judeus que trabalhavam na fábrica de munições que ele controlava – a história, parecida com a do major Plagge, foi retratada em A Lista de Schindler, de Steven Spielberg.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Holocausto: uma obsessão iraniana

Depois do concurso mundial de cartoons sobre o Holocausto patrocinado pelo Irão, da conferência negacionista de Teerão, das reiteradas afirmações e contradições de Mahmoud Ahmadinejad foi agora a vez de o reitor da Universidade iraniana de Ferdowsi convidar o presidente dos EUA, George W. Bush para falar aos professores e alunos e responder às suas questões sobre direitos humanos, terrorismo e Holocausto.

"Memória do Holocausto". A vida de uma criança judia na Budapeste ocupada pelos nazis.

No próximo dia 22 de Outubro às 20:00 horas e organizada pela AGAI (Asociación Galega de Amizade con Israel), terá lugar no salão de actos do Clube Internacional de Prensa de Compostela – sito na Av. da Coruña 6 (Santiago de Compostela) – uma conferência do professor e sobrevivente do Holocausto, Jaime Vándor*. Apresentação de Pedro Gómez-Valadés, Presidente da AGAI

*Jaime Vándor Koppel, professor, ensaísta e poeta. Nasceu em Viena em 1933, refugiado em Budapeste em 1939, sobrevive na Hungría às perseguições dos judeus e à IIª Guerra Mundial. Doutorado em Filosofía e Letras pela Universitat de Barcelona, em cuja Secção de Filologia Semítica deu aulas de Língua e Literatura Hebreia e Historia do Judaísmo Moderno e Contemporâneo, desde l958 até à sua jubilação em 2003. Fundador da Associació de Relacions Culturals Catalunya-Israel (ARCCI), em l979. Chanceler do Consulado de Israel em Barcelona em 1994, Cônsul Honorário em funções durante 1997. Jaime Vándor acumula o doloroso balanço de ter 150 membros da sua família, por parte materna, assassinados no Holocausto, e perto de 50 por parte do seu pai.

sábado, 29 de setembro de 2007

Yad Vashem distinguido na Europa

No próximo dia 25 de Outubro, o presidente do comité director do Yad Vashem será condecorado com a Legião de Honra pelo Presidente francês Nicolas Sarkozy. No dia seguinte voa para Espanha para receber o Prémio Concórdia outorgado pela Fundação Príncipe das Astúrias.

Na cerimónia que ocorrerá no Eliseu será honrada «a pessoa que fez do Yad Vashem um local de renome, de troca mútua intergeracional para os jovens de todos os horizontes e de todas as culturas».

«Esta prestigiosa distinção é concedida pelo extraordinário trabalho desenvolvido em todo o mundo a favor da transmissão da memória do Holocausto» está escrito na carta enviada a A. Shalev pelo presidente francês.

«Para além do facto de exprimirem reconhecimento pelo trabalho realizado pelo Yad Vashem através do mundo, estes prestigiantes prémios internacionais mostram que a memória do Holocausto tem um profundo significado para a compreensão e a coexistência entre as famílias das nações, hoje e através dos tempos», afirmou A. Shalev justificando estas distinções honoríficas.

Nomeado para a direcção do Yad Vashem em 1993, A. Shalev, desde que assumiu funções, tentou redefinir a noção de perpetuação da lembrança do Holocausto introduzindo conceitos inovadores no domínio da pesquisa e da educação.

Este trabalho levou à criação da Escola Internacional de Estudos sobre o Holocausto, o desenvolvimento do Fundo de arquivos e, evidentemente, a abertura do novo museu em 2005.

Acreditando que a transmissão da memória do Holocausto não conhece fronteiras políticas nem barreiras linguísticas, Avner Shalev inaugurou em Janeiro de 2007 o novo sítio virtual em farsi do Yad Vashem, na mesma ocasião em que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad fazia declarações negacionistas.

Esta audaciosa iniciativa demonstrou, caso fosse necessário, o dinamismo e o espírito de abertura do responsável do Yad Vashem.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Cemitério Judaico de Lisboa vandalizado II

Espancou um imigrante quando festejava o aniversário do nascimento de Hitler, a 20 de Abril, e guardava fotografias de crianças negras com a frase ‘Por favor não alimentem os animais’. Está acusado de vários crimes mas, terça-feira, o ‘Lobo nazi’, como se apresenta o skinhead Carlos Seabra, vandalizou o cemitério judaico em Lisboa. Foi apanhado pela PSP e o juiz mandou-o ontem à tarde em liberdade.

Seabra é quase veterano do movimento neonazi em Portugal, aos 24 anos pertence à Frente Nacional desde a fundação em 2004. E é um militante de armas. Enverga camisolas com a cruz suástica e, em Abril, a Judiciária apanhou-lhe uma espingarda semi-automática, uma granada e dois punhais.

Está acusado num megaprocesso com 240 páginas por discriminação racial, ofensas à integridade física qualificadas e três crimes de posse ilegal de armas proibidas. Vai ter de responder em tribunal entre 36 skinheads acusados, mas, ao contrário do líder Mário Machado, aguarda o julgamento em liberdade.

O ‘Lobo nazi’ recebeu a acusação do Ministério Público (MP) no último dia 15 mas, dez dias depois, na noite de terça-feira, voltou a atacar. Recrutou o iniciado João Dourado, 16 anos, e partiram os dois para o cemitério judaico de Lisboa, na Avenida Afonso III. Saltaram o muro e rasparam vinte campas com objectos contundentes, gravando cruzes suásticas antes de defecarem em dois túmulos. Os prejuízos são de vários milhares de euros.

Um popular ouviu barulho e chamou a PSP às 22h50. Os dois skins acabaram apanhados em flagrante e, enquanto um tinha ‘Morte aos traidores’ tatuado no braço, o outro tinha a frase na camisola.

João também é membro da Frente Nacional, que visa “a guerra racial e acções violentas, pela supremacia da raça branca”, segundo o MP. E para eles não há lugar a “negros, judeus, ciganos ou homossexuais – são inimigos de Portugal”.

O MP pediu a prisão preventiva para os dois skinheads, sobretudo pelo perigo de alarme social, mas o juiz de Instrução Criminal decidiu-se pelas apresentações aos domingos à PSP.

"É LAMENTÁVEL NUM PORTUGAL DEMOCRÁTICO"
A comunidade israelita repudia os actos “de puro racismo e anti-semitismo” no cemitério judaico de Lisboa, segundo a porta-voz Esther Mucznik. “É lamentável que num Portugal democrático e livre se verifiquem estes acontecimentos e isto torna-nos apreensivos e indignados”, naquela que foi “a primeira vez que um cemitério foi vandalizado desta forma”.

São actos que “infelizmente não surpreendem”, diz Abílio Mourão, presidente da mais antiga comunidade judaica portuguesa, em Belmonte, Castelo Branco, apesar de na sua zona a convivência sempre ter sido “pacífica”. E também o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas reagiu ontem, condenando “de forma clara este tipo de actos. É um crime contra a comunidade judaica e uma ofensa à sociedade civil portuguesa e à democracia”.

TINHAM ALVOS JUDEUS MARCADOS
Os cartões dos telemóveis de Carlos Seabra, o ‘Lobo nazi’, e João Dourado denunciaram-nos entre terça-feira à noite, quando foram detidos, e ontem à tarde, antes de serem presentes ao Tribunal de Instrução Criminal. Os investigadores apanharam várias ligações dos dois à Hammerskin Nation, a elite do movimento neo-nazi europeu – e “guardavam fotografias de pessoas ligadas à comunidade judaica. Alvos marcados”.

Um dos crimes em que incorrem os skinheads não prevê prisão preventiva – profanação, punido até dois anos de cadeia – mas o outro, dano qualificado, pelos elevados estragos nas campas do cemitério, tem moldura penal entre dois e oito anos – suficiente para ser aplicada a prisão preventiva no novo Código de Processo Penal (acima de cinco anos). E o Ministério Público pediu prisão preventiva para os dois, dado o elevado perigo de reincidência e alarme social, mas o juiz decidiu-se pelo Termo de Identidade e Residência, medida de coacção mais leve, com apresentações ao domingo à PSP. E tudo apesar do “desprezo manifestado pelos dois pela comunidade judaica” – num contexto de “reacção e indiferença” à acusação que o MP proferiu há duas semanas contra 36 skins, entre eles o ‘Lobo nazi’.

PORMENORES
PROIBIDO RECORRER
O Ministério Público é obrigado a conformar-se com a liberdade dos dois skinheads e não pode recorrer da decisão do juiz de instrução criminal, pelo artigo 219 do novo Código de Processo Penal. O MP já só o poderia fazer em benefício do arguido – a prisão preventiva está fora de questão.

RITUAL DE INICIAÇÃO
O skinhead João Dourado já pertence à Frente Nacional, mas, aos 16 anos, passa ainda por rituais de iniciação ao movimento neo-nazi, apurou o CM. E a profanação ao cemitério judaico foi um deles – a forma de subir na estrutura nacional.

EXIBIÇÕES NA NET
O ‘Lobo nazi’ lançou um dia no site da Frente Nacional: “Continua a quebrar as regras até ao fim”. E num vídeo intitulado ‘Nazi paraquedista’, no site do Youtube, colocou imagens suas a envergar uma camisola com a cruz suástica enquanto arrancava um cartaz da CDU.


Correio da Manhã - Henrique Machado com M.C.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cemitério Judaico de Lisboa vandalizado

Cemitério Judaico: Comunidade repudia acto «anti-semitismo»

A Comunidade Israelita de Lisboa repudiou hoje o acto inédito «de puro racismo e anti-semitismo» de vandalização, na terça-feira, de cerca de duas dezenas de túmulos do Cemitério Judaico da capital com cruzes suásticas.

Em declarações à Agência Lusa, a porta-voz da Comunidade Israelita de Lisboa, Esther Mucznik, considerou «lamentável que num Portugal democrático, livre se verifiquem acontecimentos de carácter racista e anti-semitista».

«Isto torna-nos apreensivos e indignados», acrescentou, frisando que «é a primeira vez» que o cemitério é vandalizado desta forma.

A comunidade apresentou queixa às autoridades, que detiveram dois jovens suspeitos, e vai dar conhecimento do «acto puro de racismo e anti-semitismo» ao governo e à Comissão da Liberdade Religiosa.

Em comunicado hoje divulgado, a Comunidade Israelita de Lisboa esclareceu que, na noite de terça para hoje, cerca de 20 túmulos no Cemitério Judaico de Lisboa foram vandalizados e nas pedras das lápides inscritas suásticas nazis.

Por sua vez, o Comando Metropolitando da PSP de Lisboa anunciou que foram detidos, na terça-feira, dois homens, de 16 e 24 anos.

domingo, 19 de agosto de 2007

O longo percurso da reabilitação de Aristides de Sousa Mendes

O processo de reabilitação de Aristides de Sousa Mendes foi longo. Israel foi o primeiro país a reconhecer o gesto do Cônsul, atribuindo-lhe, a título póstumo, a Medalha de Ouro dos “Justos”, do Yad Vashem, em 1967. Nesse ano, foi também plantada uma árvore, em sua memória, na Alameda dos Justos, em Jerusalém.

Portugal manifestou-se durante a segunda metade da década de 1980. Em, 1986, em Cabanas de Viriato, terra natal de Aristides de Sousa Mendes, é criada uma “Comissão de Homenagem ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes”. Em Maio do ano seguinte, em Washington, na Embaixada de Portugal, o Presidente da República, Mário Soares, entrega à família Sousa Mendes a Ordem da Liberdade, no grau oficial. Em 1988, a Assembleia da República, sob proposta do Deputado Jaime Gama, aprova, por unanimidade, a reintegração do Cônsul na Carreira Diplomática, com promoção a Embaixador.

Outras homenagens se seguiram. Em 1990, em Montreal, no Canadá, deu-se o nome de Aristides de Sousa Mendes a um parque no centro da cidade. Três anos depois, a RTP 2, exibiu o documentário “O Cônsul injustiçado”, de Diana Andringa, Teresa Olga e Fátima Cavaco, mais tarde, também exibido pelo canal francês “France 3”. Em Maio de 1994, foi plantada, em Israel uma floresta de 10.000 árvores com o seu nome no Deserto do Negev. Em Bordéus, nesse mesmo mês, no Jardim da Resistência, o Presidente da República, Mário Soares, descerra um busto de Aristides de Sousa Mendes, oferecido pela comunidade portuguesa residente na cidade, e uma placa comemorativa no edifício do antigo Consulado de Portugal. O nome de Aristides de Sousa Mendes é, ainda, atribuído a uma rua e a um liceu de Bordéus. Outras ruas, noutros países, incluindo Portugal, viriam a partilhar o mesmo nome. Em Março de 1995, a Fundação Pro-Dignitate promove uma Homenagem Nacional a Aristides de Sousa Mendes. Nessa cerimónia o Cônsul é condecorado postumamente com a grande Cruz da Ordem de Cristo. Nesse mesmo mês, o Metropolitano de Lisboa associa-se à Homenagem, com uma medalha de João Cutileiro colocada na Estação do Parque, dedicada aos Direitos do Homem. Três anos depois, em Novembro, também o Parlamento Europeu, em Estrasburgo, homenageia o Cônsul. No final da década de 90, no Brasil, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro atribui-lhe a Condecoração da Cidade. Em Portugal, o Presidente da República, Jorge Sampaio, desloca-se a Cabanas de Viriato, para homenagem a Sousa Mendes. Aí, nesse mesmo ano, junto ao jazigo onde repousam os restos mortais de Aristides de Sousa Mendes, D. António Monteiro, bispo de Viseu, pede publicamente perdão, em nome da hierarquia da igreja, pela recusa de auxílio a Aristides de Sousa Mendes e sua família, quando estes a solicitaram. No início do ano 2000, foi constituída a Fundação Aristides de Sousa Mendes, tendo-lhe sido doada a quantia de 50 mil contos pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Jaime Gama. Nos dias 2 e 3 de Abril do mesmo ano, decorreu a II Homenagem Nacional a Aristides de Sousa Mendes promovida pela Fundação Pro-Dignitate. Em simultâneo, inaugura-se a exposição “VISAS FOR LIFE” nas Nações Unidas, em Nova Iorque. Em Setembro, outra exposição, intitulada “Vidas poupadas: A acção de três diplomatas portugueses na II Guerra Mundial” foi inaugurada em Newark, promovida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros – Instituto Diplomático.

Em Junho de 2004 comemorou-se, em Portugal, o quinquagésimo aniversário do falecimento de Aristides de Sousa Mendes.

Em 2005, inaugurou-se a exposição na Biblioteca Nacional resultante da colaboração entre a Biblioteca Nacional, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Fundação Aristides de Sousa Mendes e, em Paris, a Unesco, dedicou dois Concertos à Memória de Aristides de Sousa Mendes tendo entregue uma parte da receita à Dra. Maria Barroso, Presidente da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

in «Fundação Aristides de Sousa Mendes»

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A política da memória

por Esther Mucznik - 2007.08.16, Público
No passado dia 4 de Agosto, morreu Raul Hilberg, o grande historiador do Holocausto. A imprensa sublinhou a morte de um "ícone". A verdade é que Hilberg morreu como sempre viveu: só, intelectualmente só. O seu destino foi traçado pelo turbilhão da primeira metade do século XX: filho único de uma família judia originária do Nordeste do Império Austro-Hungaro, de língua polaca e emigrada para Viena no princípio do século XX, refugiou-se com a sua família em 1939 nos Estados Unidos. Raul tinha 13 anos e a sua primeira lembrança, enquanto viajava de autocarro de Miami em direcção a Nova Iorque, foi a inscrição nos bancos reservados para "as pessoas de cor". "Eu, que não estava autorizado a sentar-me nos bancos dos parques de Viena com a inscrição Nur fur Arier (só para arianos), acabava de ser catapultado para um escalão superior ao de muitos americanos nascidos na América", escreveu ele no seu derradeiro livro, A política da memória. Tal como os seus pais, trabalha numa fábrica enquanto acaba o liceu e inicia os estudos de Química, que interrompe aos 18 anos, quando é mobilizado para o exército, em 1944. Sob uniforme americano, parte para a Europa, onde assiste ao final da guerra e onde algumas questões que o perseguirão ao longo da vida começam a aflorá-lo: "Numa noite de Abril de 1945, na Baviera, eu contemplava o solo juncado de cadáveres de alemães mortos e rechaçados pela nossa artilharia, depois de uma tentativa desesperada de assalto. O que tinha levado esses homens num estádio terminal da guerra a precipitarem-se em direcção a uma morte quase certa? Porque obedeceram a uma ordem dessas? Porque não se amotinaram?". De volta a Nova Iorque, Raul Hilberg abandona definitivamente a Química e concentra-se na História e nas Ciências Políticas. A sua origem austríaca e europeia, a deportação e a morte de avós, tios e primos no Holocausto e a sua estadia na Europa no final da guerra determinam o tema a que dedicará toda a sua vida: a destruição dos judeus da Europa. Esta destruição, Hilberg não a vê como um massacre no sentido clássico do termo: "Era infinitamente mais, e esse "mais" residia no zelo de uma burocracia muito elaborada e disseminada. A burocracia formava um mundo secreto, um mundo negligenciado, e, a partir do dia em que o compreendi, nada me fez recuar na tentativa de forçar as suas janelas cerradas e as suas portas aferrolhadas". Esta perspectiva leva Hilberg a interessar-se pelos executores alemães. A destruição dos judeus era uma realidade alemã e, em sua opinião, seria impossível apreender a verdadeira dimensão do genocídio nazi sem conhecer os mecanismos dos actos dos executores. "A certeza de que a perspectiva do executor oferecia a primeira pista a seguir tornou-se para mim uma doutrina que nunca mais abandonei." A análise, durante o julgamento de Nuremberga, da correspondência interna dos nazis permitiu-lhe formular as suas primeiras hipóteses: a destruição dos judeus não foi uma operação centralizada, mas obra de um aparelho burocrático com vida própria que se estendeu a todos os grandes sectores da sociedade alemã; a "Solução Final" não foi um plano preconcebido, mas sim um processo com uma lógica interna que levava a que cada etapa fosse condição necessária da seguinte, cada vez mais gravosa: primeiro, a definição de quem era judeu; depois, a sua concentração; finalmente, o seu aniquilamento. Ao iniciar a sua investigação, Hilberg sabia que entrava num território até então evitado pelos especialistas e pelo público. Com efeito, vivia-se uma época em que ninguém estava interessado nesse tema: incentivava-se aqueles a quem as lembranças torturavam - os sobreviventes - a esquecer, e a preocupação que presidia ao julgamento de Nuremberga era mais a de fechar um ciclo do que entender a história da Alemanha. Prematura, a tese de Hilberg, representava um passado que não se queria evocar. Durante mais de sete anos, Hilberg viveu mergulhado num mundo à parte, analisando dezenas de milhares de documentos exclusivamente de fontes alemãs, sem descurar os mais anódinos: "Ao longo do meu trabalho, nunca comecei pelas grandes questões, porque receava magras respostas", dirá mais tarde a Claude Lanzmann, autor do documentário Shoah. Terminada em 1955, só em 1961 Hilberg conseguiu editor para a sua obra. Mas a publicação passou quase despercebida do grande público e, de uma forma geral, não foi bem recebida pelos especialistas. Com efeito, Hilberg demonstrava que o massacre dos judeus tinha sido um acto nacional, no qual os alemães tomaram parte como nação, contrariando frontalmente a tese então dominante de que regime nazi era uma aberração da história, imposto contra a vontade da população. Por outro lado, em contradição absoluta com a visão do recém-criado Yad Vashem, de Jerusalém, que, sobretudo nos primeiros anos, privilegiava o lado heróico dos resistentes judeus, Hilberg sustentava que a passividade judaica tinha contribuído para o seu próprio processo de destruição. Mas, à diferença de Hannah Arendt, que centrava nos dirigentes judaicos da época as suas acusações, Hilberg analisava a tradição milenária "que levava os judeus a confiarem em Deus, nos príncipes, nas leis e nos contratos", assim como a convicção alicerçada pela história de que "o perseguidor não destruiria o que podia explorar do ponto de vista económico". Um dia, perante um anfiteatro completamente cheio de estudantes que lhe colocavam pela milésima vez a questão do porquê da ausência de revolta judaica, Hilberg, farto de explicar o terror nazi, a rapidez do esmagamento dos exércitos inimigos - e a passividade ou colaboração de grande parte das populações europeias -, o isolamento, a desorientação e o desarmamento judaico, resolveu responder de outra maneira: "Quem é judeu, entre vós?", perguntou. A grande maioria levantou a mão. "Quem possui uma arma em casa?" Apenas algumas mãos se levantaram. "Apenas quatro ou cinco", concluiu Hilberg. "Ora sabemos que a maioria dos americanos tem armas em casa. E vocês ainda ousam perguntar-me porque razão, em 1940, os judeus da Europa não se defenderam?" Em 1998, participei com Raul Hilberg, em Paris, num colóquio internacional, organizado pelo Centro de Documentação Judaica Contemporânea. Dos numerosos historiadores, investigadores e arquivistas reunidos durante três dias para fazer o balanço da investigação sobre o Holocausto, a minha lembrança mais viva é a dele. Raul Hilberg mantinha-se fiel a si próprio: recusando os floreados, a visão ideológica, a enfatização das questões, a manipulação dos textos. Como toda a sua obra, a sua intervenção foi sem compromissos: "O escritor usurpa a verdade; substitui um texto a uma realidade que se desvanece rapidamente. As palavras tomam, assim, o lugar do passado e retemos mais as palavras do que os acontecimentos. A nossa responsabilidade é, pois, única"...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Narrar a destruição dos judeus com os documentos dos carrascos

por Jorge Almeida Fernandes no «Público», 09.08.2007

O historiador Raul Hilberg fez uma revolução na historiografia do Holocausto. Foi o primeiro a narrá-lo como um processo, reconstituindo minuciosamente as suas etapas, a máquina burocrática e as operações de extermínio. Ignorado durante 20 anos, morre como "ícone"
O historiador americano Raul Hilberg, 81 anos, morreu sábado num hospital de Vermont, de cancro de pulmão. A sua vida roda em torno de uma decisão tomada aos 22 anos: estudar o Holocausto como "acontecimento histórico". A sua investigação culminou num imenso livro concluído em 1955 e apenas publicado em 1961, The Destruction of the European Jews. Entre as dezenas de milhares de estudos sobre o genocídio, este marca um corte - há um antes e um depois. Quase ignorado durante 20 anos, Hilberg morre como "ícone", celebrado como autor de uma "revolução historiográfica" (Nicolas Weill). Resumiu o seu programa numa frase: "Decidi interessar-me pelos executores alemães. A destruição dos judeus era uma realidade alemã. Foi posta em marcha nos gabinetes alemães, numa cultura alemã, e eu queria compreender como." Decide, portanto, partir do ponto de vista dos "executores" e não das vítimas. Recusou, enquanto historiador, utilizar os termos Holocausto ou Shoah, o primeiro pela sua carga religiosa (sacrifício pelo fogo), o segundo pela identificação com as vítimas. "É o executor quem tem a visão de conjunto, não a vítima." Trabalhando uma massa incalculável de documentos, narrou o Holocausto como "um processo", composto por sucessivas etapas, reconstituindo exaustivamente a máquina burocrática e as operações de extermínio - a definição das vítimas por decreto, a expropriação, a concentração, as matanças por comandos móveis, a deportação, os campos de extermínio. "A destruição dos judeus era um fenómeno sem precedentes" e por isso, antes de perguntar "porquê", era necessário estudar a sua lógica e os mecanismos. É a partir daqui que se pode pensar, na plenitude, a dimensão ética da catástrofe. Além de A Destruição, Hilberg deixa-nos outras obras importantes, designadamente Perpretators Victims Bystanders (1992), em que as vítimas ocupam o lugar central, e The Politics of Memory (1996), uma autobiografia intelectual. Gostava de se definir como "profundamente conservador", ateu e de hábitos "tipicamente pequeno-burgueses".

Nos arquivos

Nascido em Viena em 1926, Raul Hilberg assistiu na infância à propagação da peste nazi. Em 1938, depois da anexação da Áustria pela Alemanha, viu o pai ser preso. Mas logo vem um golpe de sorte: como ele tinha sido combatente na I Guerra Mundial, um oficial alemão decide deixar partir a família. Os Hilberg vão para Cuba e instalam-se depois em Nova Iorque. Muitos parentes serão exterminados.
Raul começa por estudar Química. Aos 18 anos, interrompe os estudos e alista-se no exército americano, fazendo os últimos meses de guerra na Alemanha. Em Munique, a sua unidade interroga altos dignitários nazis e procura arquivos, para preparar o Julgamento de Nuremberga. Raul descobre seis caixotes com a biblioteca pessoal de Hitler e, sobretudo, tem acesso a pastas abandonadas pelos nazis depois da libertação do campo de Dachau. Estava decidida a sua vida. Regressado à América, troca a química pela ciência política. Em 1948, decide consagrar a sua vida ao estudo da destruição dos judeus, que escolhe como tema de tese de doutoramento em 1952. É influenciado pelas ideias do seu professor Franz Neumann (1900-54), exilado alemão que publicara um estudo sobre o funcionamento "caótico" da burocracia nacional-socialista (Behemoth). Newman procura dissuadi-lo e diz: "É o seu funeral" académico.
Hilberg entra no War Document Project, o que lhe dá acesso aos arquivos alemães apreendidos pelos americanos. Começa uma busca exaustiva, a consulta e cotejo de dezenas de milhares de documentos, a sua decifração, as sucessivas reinterpretações. Depressa aprende que as mais anódinas fontes são minas de informação. O extermínio dos judeus atravessa toda a administração e toda a sociedade. Só para Auschwitz, trabalharam 200 empresas. No fim da vida reivindicou o estatuto de "homem vivo que mais documentos leu". Reescreverá duas vezes A Destruição, em 1985 e 2003, esta graças à abertura dos arquivos do antigo bloco soviético. Os três volumes da versão final lêem-se de um fôlego. São uma narrativa, um inquérito, uma tese, estruturados e sistematizados com rigor inapelável e numa escrita que - diz - procura deliberadamente "uma frieza neutra, mecânica, objectiva". Explica o seu editor francês, Eric Vigne, da Gallimard: "É uma escrita branca, sem pathos, apenas a violência dos factos. É uma das obras que melhor expõe a violência da Shoah. A violência nasce do facto deste acontecimento totalmente irracional decorrer de um processo altamente racionalizado."

De Arendt a Israel

Hilberg defendeu a tese em 1955, com grande aplauso, mas, como Neumann o avisara, o assunto estava fora de moda. Nuremberga julgara os nazis. Aos israelitas interessavam os actos de resistência e heroísmo. Começava a Guerra Fria. Hannah Arendt teorizava o totalitarismo, conceito de que Neumann e Hilberg não partilhavam.
Demorou a arranjar lugar numa universidade, a de Vermont, e viu o livro ser recusado pelas editoras universitárias, uma delas a conselho de Hannah Arendt, que o qualificou de "inútil", mero "relatório", desprezível aos olhos da filósofa política. Mas quando, em 1963, foi atacada pelas suas reportagens sobre o julgamento de Eichmann (reunidas em Eichmann em Jerusalém), acusada de responsabilizar os judeus por não terem resistido ao Holocausto e de desculpar implicitamente os carrascos, a quem recorreu Arendt? Ao livro de Hilberg. Ele fora entretanto publicado, quase clandestinamente, em 1961, por uma pequena editora de Chicago, graças a um mecenas - sobrevivente do Holocausto. A "sentença" de Arendt, que nunca fez mea culpa, foi corroborada pelo guardião israelita da memória, o memorial de Yad Vashem: acusou o livro de se basear "quase exclusivamente na autoridade de fontes alemãs"; e emitiu reservas "sobre a evolução da resistência judaica (activa e passiva) durante a ocupação nazi". Só agora o livro foi traduzido em Israel. Hilberg chega a várias conclusões. O anti-semitismo desempenhou um grande papel mas não explica a destruição sistemática, que não é uma "explosão de ódio", mas "uma determinação fria, um processo burocrático gerido com método e inventividade", diz numa entrevista. No entanto, não encontra um plano pré-determinado de aniquilação. É uma ofensiva que evolui, de salto em salto, até à "solução final". Mas tudo se anuncia muito cedo: "Nos primeiros dias de 1933, quando o primeiro funcionário redigiu a primeira definição de "não-ariano" numa norma administrativa, a sorte do mundo judaico europeu está selada." Por fim, a resistência foi marginal. As comunidades judaicas, enraizadas há dois milénios na Europa, adoptaram uma "estratégia de sobrevivência", resignaram-se e colaboraram para limitar as perdas. O genocídio era uma ideia inimaginável.

A História repete-se

No último capítulo de A Destruição, intitulado "As implicações", Hilberg
fala dos problemas éticos, da criação da figura do crime de genocídio e do destino da palavra de ordem dos judeus: "Nunca mais." Na terceira edição, prolonga a reflexão até aos nossos dias, culminando na análise do genocídio dos tutsis no Ruanda, "à vista de todo o mundo". Ninguém respondeu ao desafio. "Os juristas do Departamento de Estado, nos Estados Unidos, recusaram mesmo o emprego do termo genocídio a propósito do Ruanda, com medo que isso os obrigasse a fazer qualquer coisa." O Conselho de Segurança da ONU adoptou, a 17 de Maio de 1994, uma "resolução unânime" condenando o "massacre de civis". A última frase do livro é portanto esta: "A História tinha-se repetido".

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Morre Raul Hilberg

SAN FRANCISCO (Reuters) - Raul Hilberg, que dedicou mais de meio século ao estudo do Holocausto, morreu aos 81 anos, informou a Universidade de Vermont (EUA) na terça-feira.

Judeu nascido em Viena, Hilberg ficou conhecido especialmente graças ao gigantesco estudo "A Destruição dos Judeus Europeus", que descrevia como a Alemanha nazi construiu e operou a máquina de matar mais letal da história, que assassinou 6 milhões de judeus.

Quando começou sua pesquisa, logo após a Segunda Guerra Mundial, Hilberg era um dos poucos a se dedicarem com tanta paixão a esse tema. "Na comunidade judaica, o tópico era quase um tabu também", disse Hilberg em 2004 à Reuters. "Fui adiante com meu trabalho a partir do final de 1948, quase, eu diria, como um protesto contra o silêncio."

A primeira versão do livro dele saiu em 1961, abordando em detalhes desde as raízes do anti-semitismo na Alemanha até as minúcias burocráticas do sistema de campos de concentração.

Ele prosseguiu suas pesquisas nos vastos arquivos do Holocausto, mergulhando no que ele descreveu como "um gigantesco quebra-cabeças" que acabaria levando à ampliadíssima terceira edição, em 2003.

Hilberg, que não era fumante, morreu no sábado de cancro de pulmão em Williston, Vermont.
** (este blogue continua de férias até ao final do mês de Agosto)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Chiune Sugihara

No recente périplo europeu, o imperador japonês, Akihito deslocou-se à Lituânia onde depositou uma coroa de flores no monumento à memória do «Justo» Chiune Sugihara. Durante a Segunda Guerra Mundial, e apesar das ordens contrárias de Tóquio, este diplomata nipónico concedeu vistos a milhares de judeus polacos, lituanos e alemães que fugiam dos nazis.

Foto: Yukiko e Chiune Sugihara, no consulado de Kaunas, circa 1939 - 1940. (Cortesia de Visas for Life Foundation — Sugihara Collection)

terça-feira, 24 de julho de 2007

Dinamarca premeia negacionista

O Centro Simon Wiesenthal pediu ao Primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen, que anulasse prémio monetário atribuído pelo Conselho das Artes do Ministério da Cultura (Kunst Raadet) a Erik Haaest, mais conhecido como «o Céptico da Shoah».
No protesto redigido o director de relações internacionais do Centro Wiesenthal, Shimon Samuels, escreve: “Haaest recebeu esta distinção pelo seu trabalho sobre «A Legião Dinamarquesa de Libertação na Frente Leste, 1941-45», que dificilmente pode ser considerado como um título de glória nacional dinamarquesa”. E acrescenta: “As citações de Haaest da literatura negacionista remetem para o volume de 1959 do «Journal of Historical Review», publicado pelo Instituto com o mesmo nome, que é frequentado pelos nazis do mundo inteiro.”
Samuels cita a secção cultural do «DR Nyheder» que na legenda de uma câmara de gás, escreve: “ Erik Haaest coloca em dúvida a existência de câmaras de gás no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia”. Outra publicação afirma que Haaest qualificou o «Diário de Anne Frank» de escroqueria.
O protesto do Centro Wiesenthal termina afirmando: “O prémio que o vosso governo deu a Haaest viola os compromissos da Dinamarca para com a Comissão Europeia e a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa. Este acto legitima a negação da Shoah, o incitamento ao antisemitismo, é um insulto aos sobreviventes da Shoah e às famílias de todas as vítimas do nazismo. O nosso Centro pede que este prémio seja retirado e que seja aberto um inquérito para o apuramento de responsabilidades”.
“O silêncio será interpretado pelos propagadores do ódio como uma aprovação”, declarou Samuels.

O Protegido da Cruz Vermelha Internacional

Foi encontrado nos arquivos de um tribunal de Buenos Aires o documento de viagem, passado pela Cruz Vermelha Internacional, que permitiu ao criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann deixar a Europa e ir para a Argentina, totalmente livre, no dia 01 de Junho de 1950.
Enviado por Mesillat Yesharim

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Vélodrome d’hiver

Há 65 anos teve lugar a rusga do Vélodrome d’hiver (Velódromo de Inverno). A 16 de Julho de 1942, às 4 horas da manhã, 12.884 judeus foram detidos. Entre eles estavam 4.051 crianças 5.802 mulheres. A maioria foi enviada para o Vélodrome d’hiver, situado no 15º bairro de Paris. Os outros foram levados directamente para o campo de concentração de Drancy. A polícia francesa do regime de Vichy teve um papel fundamental nas detenções.
Vélodrome d’hiver converte-se numa prisão provisória. Durante 5 dias, 7.000 pessoas vão tentar sobreviver sem comida e com um único acesso à água. Os que tentaram fugir foram imediatamente abatidos. Uma centena de prisioneiros suicidar-se-á.
A rusga do Vélodrome d’hiver representou mais de um quarto dos 42.000 judeus enviados para Auschwitz em 1942. Só 811 regressaram. Em 16 de Julho de 1995, o presidente da República Jacques Chirac reconheceu a responsabilidade da França na rusga e na Shoah.

Carta de Marie Jelen comunicando ao pai a sua detenção

segunda-feira, 16 de julho de 2007

A Arte de Geoffrey Laurence

'SURVIVORS - MIDDLE PANEL'
20" X 20" OIL ON CANVAS 2000


' those the river keeps'
(charcoal study )
48" X 60" CHARCOAL ON PAPER 2006

'if not now, when?'
(Triptych)
34" X 100" OIL ON CANVAS 2000
Veja aqui outras obras deste artista

Guarda: Biblioteca vai acolher centro sobre Sousa Mendes

«O edifício do Solar Teles de Vasconcelos, onde funciona a actual Biblioteca Municipal da Guarda, vai ser transformado num local de estudo e divulgação da vida e obra do cônsul Aristides Sousa Mendes.
No âmbito do projecto «Memorial da Vida Aristides Sousa Mendes», que envolve a Câmara Municipal da Guarda e a Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE), o edifício será convertido num local que permitirá «homenagear e estudar o trabalho do cônsul», que durante a II Guerra Mundial, salvou 30 mil pessoas do holocausto nazi.
Segundo Jorge Patrão, presidente da RTSE, o espaço funcionará como «centro de documentação, de filmes e de fotografias», permitindo o estudo da vida do cônsul e o apuramento dos dados relacionados com a identidade das pessoas que ele salvou.
O mesmo projecto contempla a instalação, na cidade da Guarda e na fronteira de Vilar Formoso, de monumentos com os nomes dos refugiados - 12 mil judeus e 18 mil não judeus que foram salvos do holocausto nazi pelo cônsul de Portugal em Bordéus (França).
Em relação à fronteira, foi ainda referido na cerimónia de lançamento do projecto, que a CP e a Câmara Municipal de Almeida, irão decidir a melhor forma de criar naquela vila fronteiriça um espaço que permita evocar «a chegada dos refugiados» a Portugal, a bordo do comboio Sud Express.
O dinamizador do Memorial, Jorge Patrão, adiantou à Agência Lusa que os projectos serão alvo de uma candidatura ao próximo QREN (Quadro de Referência Estratégica Nacional), admitindo que a sua concretização possa estar efectivada «no final de 2008».
Foi também anunciado pela Região de Turismo da Serra da Estrela que o feito de Aristides de Sousa Mendes será objecto da publicação de um livro e de um filme, intitulado «O Selo», pelo realizador George Felner.
Na cerimónia, o presidente da Câmara Municipal da Guarda, Joaquim Valente, referiu que o Memorial dedicado a Aristides de Sousa Mendes irá ficar sedeado no Solar Teles de Vasconcelos, que em breve ficará vago, com a mudança dos serviços da Biblioteca Municipal para um novo imóvel.
O autarca fez votos para que o futuro espaço, que será integrado na Rota das Judiarias, criada pela RTSE, «projecte a região da Guarda na Europa e no Mundo».
O Embaixador de Israel em Portugal, Aaron Ram, também presente na apresentação de hoje, disse que em Israel Aristides de Sousa Mendes «é considerado um herói, um homem que se comportou como um ser humano numa época em que muito poucos o fizeram».
Salientou que «ocupa um lugar de honra no Museu Memorial de Yad Valshem, em Jerusalém», e valorizou o Memorial que será edificado na Guarda «ao homem que foi tão importante para o povo judeu e para a nação portuguesa».
Por sua vez Álvaro Sousa Mendes, neto do cônsul e presidente da Fundação que tem o nome de Aristides Sousa Mendes, mostrou-se «muito emocionado» com o projecto do Memorial que será «um hino à vida».
Recordou que a Fundação a que preside foi criada em 2000 e que neste momento tem a «preocupação grande» de recuperar a casa do seu avô, em Cabanas de Viriato.
«A Fundação comprou a casa em 2001 e hoje pretendemos fazer ali uma Casa Museu, um monumento dedicado a Aristides de Sousa Mendes e aos refugiados, com uma biblioteca sobre a II Guerra Mundial e o período do holocausto», disse.
O projecto de arquitectura está a ser executado neste momento, esperando que «até final do ano» possa ter «um projecto com estimativas de custos» para ser apresentado ao Estado e aos mecenas.
O diplomata português Aristides de Sousa Mendes, nascido em Julho de 1885, em Cabanas de Viriato, foi o cidadão do mundo que mais seres humanos salvou durante a II Guerra Mundial.
Os salvo-condutos passados em Bordéus e Bayonne (França) permitiram a passagem da fronteira franco-espanhola dos Pirinéus e a entrada em Portugal pela fronteira de Vilar Formoso.
O cônsul português em Bordéus (França), entre os dias 17 e 19 de Junho de 1940, assinou 30 mil vistos para salvar pessoas do holocausto nazi, contrariando as ordens do Governo de Salazar, situação que o levaria à expulsão da carreira diplomática.
Morreu a 03 de Abril de 1954 em Lisboa, no Hospital da Ordem Terceira.»
Diário Digital / Lusa

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Os massacres dos Judeus na Ucrânia ou a Shoah através das balas

Ainda se pode aprender algo sobre a Shoah ? Provavelmente, alguns responderão pela negativa. No entanto, na altura em que ainda se discute o número de vítimas, e até o próprio acontecimento, a iniciativa da associação Yahad – In Unum para localizar as valas comuns onde jazem centenas de milhar de judeus, homens, mulheres e crianças fuzilados pelos nazis de aldeia em aldeia na Europa oriental (cerca de um milhão e meio na Ucrânia) fornece-nos abundantes e preciosas informações. Falamos de factos concretos, de provas tangíveis e de testemunhos vivos, tanto mais úteis por esclarecerem uma parte da história que os anos do comunismo soviético deixaram na sombra.
Enquanto as pesquisas e as entrevistas prosseguem no terreno, a exposição organizada pelo Mémorial de la Shoah explica a origem e o objectivo e coloca os factos no seu contexto histórico. Através dos documentos da época, os testemunhos perturbadores e concordantes que passam nos ecrãs de vídeo, a apresentação das armas e dos objectos encontrados no local, as imagens da peritagem arqueológica das quinze fossas, terminada em Agosto de 2006 na região de Lvov, o visitante descobre os meios colocados à disposição para realizar as execuções, e depois para dissimular os traços, com a cumplicidade forçada dos habitantes locais. Assim descobrimos não só o crime, mas o negacionismo nazi.
O dever de memória, como sabemos, não se impõe só aos historiadores. Não estamos unicamente perante uma homenagem póstuma às vítimas finalmente (re)conhecidas, nem uma possível ferramenta de dissuasão para o futuro: é também uma maneira de cada uma das testemunhas se libertar (mesmo depois de tantos anos) de um pesado segredo e talvez para cada um recuperar uma certa dignidade. E alguma fé no homem.

Se passar por Paris até 30 de Novembro 2007 não deixe de visitar o Mémorial de la Shoah, 17 rue Geoffroy Lasnier - 75004 PARIS
Entrada livre

domingo, 8 de julho de 2007

Souza Dantas, um «justo» brasileiro

Recentemente Thiago Cohen evocou aqui a memória do «justo» brasileiro João Guimarães Rosa. Porém, o Brasil tem dois cidadãos, ambos diplomatas, a quem foi prestada essa justa homenagem. O outro é Luis Martins de Souza Dantas que concedeu, à revelia do seu governo, centenas de vistos a judeus franceses, salvando-os de uma morte certa.

Dantas serviu como embaixador do Brasil em França durante o período da ocupação nazi. Em 1940 pediu e recebeu permissão do MNE brasileiro para conceder um número limitado de vistos a cidadãos franceses. Apesar de o Brasil ter banido a imigração de judeus, ele concedeu vistos diplomáticos a centenas de judeus permitindo-lhes escapar ao regime de Vichy.

A revista Morashá publica um resumo da biografia deste «justo» baseada na obra do historiador Fabio Koifman "Quixote nas Trevas".

Explicar o Holocausto aos iranianos

A ofensiva negacionista promovida por Teerão motivou a abertura uma versão farsi do sítio internet do Yad Vashem. Inaugurado no final de Janeiro o novo site motivou um interesse apaixonado. No espaço de uma dezena de dias registou 20.000 visitantes, 6.000 dos quais provenientes do Irão.

O site em farsi contêm vinte secções, apresentando a cronologicamente a realidade do Holocausto, desde a ascenção do nazismo até ao julgamento de Nuremberga. Um grande número de iranianos enviaram emails solicitando informação complementar. Um dos primeiro visitantes fez questão de se dessolidarizar das declarações do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad sobre o mito do Holocausto: «Enquanto iraniano tenho vergonha destes comentários e tenho a certeza que o mesmo acontece com outras pessoas do meu país. (...) Aqui a história é deformada e as pessoas não têm muita informação sobre a Segunda Guerra mundial e o Holocausto.»

Motivados por esta experiência os responsáveis do Yad Vashem pensam criar outra versão do sítio em lingua árabe.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Anti-semitismo na Galiza?

O director do Le Monde Diplomatique fez uma conferência na sua terra natal e, por ter criticado afirmações anti-semitas, foi considerado «traidor» pelos seus camaradas. Segue o artigo - em espanhol - onde o próprio relata o acontecimento.

IGNACIO RAMONET 04/07/2007 , El Pais
Con Ramón Chao, estuve hace unos días en Redondela, mi villa natal, invitado por el Club Internacional de la Prensa que dirige con eficiencia Carmen Carballo. En el Multiusos da Xunqueira, puesto a disposición por el alcalde Xaime Rei, dimos al alimón una conferencia sobre Guerra y paz hoy; geopolítica de los conflictos contemporáneos que cerraba el ciclo sobre Os latexos do mundo. Lejos estábamos de imaginarnos que, en ese marco, íbamos a ser testigos, en la Galicia de hoy, de manifestaciones de odioso antisemitismo.

Nuestro propósito era proponer respuestas a algunas de las siguientes preguntas: ¿cómo entender el mundo contemporáneo? ¿Cuáles son los principales enfrentamientos -militares, políticos, económicos, ecológicos- del mundo de hoy? ¿Es acaso la llamada "guerra contra el terrorismo internacional" la respuesta adecuada a los grandes desórdenes contemporáneos?
Dijimos que, al contrario de la impresión que dan los grandes medios, el mundo esta hoy bastante pacificado pues el 80% de los conflictos se producen en el interior de un único "foco perturbador" constituido por un área geográfica que va de Cachemira a Darfur, en la que se hallan Afganistán, Irán, Irak, Chechenia, Kurdistán, Líbano, Palestina y Somalia. Fuera de esa zona, y si exceptuamos Colombia y Sri Lanka, no hay guerras importantes en el planeta. O sea, que desde hace 200 años, nunca se ha conocido un mundo menos conflictual. Por vez primera en siglos, ningún conflicto enfrenta a dos estados entre sí. O sea, que todas las guerras lo son entre un Estado y una o varias organizaciones no estatales armadas: por ejemplo, Estados Unidos contra Al Qaeda, Turquía contra el PKK kurdo, Israel contra Hezbollah o contra Hamas.
Era pues un tema muy amplio que Ramón Chao, apoyándose en una sólida documentación histórica, ensanchó más aún evocando la "guerra contra los pobres" contra quienes se ensaña hoy la globalización neoliberal. Nuestra sorpresa vino al iniciarse el coloquio con la sala abarrotada por una asistencia en gran parte acudida de fuera de Redondela. La primera persona, muy exaltada, que tomó la palabra empezó lanzando largos improperios contra una suerte de "conjura de los judíos" que, según ella, "gracias a su poderío económico y mediático" "hacen un chantaje permanente a la opinión pública internacional evocando sin cesar el genocidio y así victimizándose". Lo que, siempre según esa persona, "les permite cometer a su vez un genocidio contra los palestinos".
Después de esa retahíla de tópicos antisemitas, expresados a gritos, lo que más nos sorprendió fue que una parte de la asistencia aplaudió como si aprobase tan lamentables propósitos. Por mi parte, declaré que condenaba del modo más explícito semejantes palabras y que hallaba insólito que a estas alturas aún se pudiera caer, bajo pretexto de defensa de la causa palestina, en el antisemitismo más craso. Si es obvio que se deben criticar algunas actuaciones de los ejércitos de Israel (al igual que los atentados palestinos contra civiles israelíes inocentes), ello no debe en ningún caso llevar a retomar los nefastos seudoargumentos del más añejo y criminal antisemitismo. La mayor parte de los asistentes aprobaron con aplausos esta posición.
Pero, hábilmente repartidos por la sala, lo que muestra que el grupo había venido con malas intenciones, los amigos de la primera persona replicaron tratándome de "traidor" y de "ignorante", argumentando que "el antisemitismo no existe pues los árabes también son semitas". Como si una crítica léxica pudiese negar la realidad del trágico y secular antijudaísmo en toda Europa, sin excluir Galicia.
Este incidente no solo empaño mi alegría de dar por primera vez una conferencia en mi ciudad natal de Redondela, sino que muestra sobre todo un preocupante arraigo en una parte descarriada de la extrema izquierda de Galicia de nauseabundas tesis antisemitas. Que deshonran nuestra tierra. El sueño de la razón produce monstruos. Y la incapacidad de pensar de algunos les ha llevado a la peor de las monstruosidades. Es hora de rectificar.

domingo, 1 de julho de 2007

As rotas da morte

As linhas mostram as rotas de transporte para os campos de concentração dos prisoneiros assinalados no mapa.
Os gráficos refletem os censos da população judaica realizados em 1937 na Europa e em 1939 na União Soviética. A parte mais escura representa o número de judeus mortos.
Na Jugoslávia, Roménia, Holanda e Polónia a população judaica foi praticamente exterminada. Proporcionalmente, na Alemanha salvaram-se mais de metade dos judeus.

Muitos escaparam graças a subterfúgios e a amizades, outros por estarem casados com alemães, sobreviveram suportando misérias e penúrias mas não foram exterminados nem conduzidos a campos de extermínio.

sábado, 30 de junho de 2007

O Yad Vashem da Polónia

Foi demarcada em Varsóvia, na Polônia, uma área de 13 mil metros quadrados, no local em que antes da II Guerra Mundial ficava o bairro judaico, em frente ao Monumento dos Heróis do Gueto, da renomada escultora N. Rappaport. Era exatamente nessa área que se localizava o Gueto de Varsóvia e é onde será construído, nos próximos anos, o Museu da História dos Judeus Poloneses que, como o nome diz, será dedicado à história da comunidade judaica no país. Para o diretor do projeto, Jerzy Halbersztadt, as novas instalações serão uma espécie de museu virtual, uma mescla de conteúdos e tecnologia interativa.
Segundo estudiosos, este projeto é o passo mais significativo já dado pelas autoridades polonesas, nos últimos dez anos, no processo de reconciliação com o povo judeu. A coordenação geral do museu está a cargo dos professores Israel Gutman, ex-historiador-chefe do Yad Vashem, em Jerusalém, e do professor Felix Tych, diretor do Instituto Histórico Judaico da Polônia. O prédio abrigará 133 exposições permanentes, retratando cerca de mil anos de história.
O arquiteto Frank Gehry – cujos pais vieram de Lodz – responsável pelo design do famoso Museu Guggenheim, em Bilbao, Espanha, aceitou o convite para projetar o Museu de Varsóvia. O acervo incluirá objetos de várias épocas, e até partes de jornais distribuídos no gueto, em 1942, quando os judeus estavam sendo deportados em massa para o campo da morte de Treblinka. Haverá, também, exposições sobre as diferentes fases da vida judaica no país.
O primeiro-ministro polonês, Leszek Miller, também se pronunciou, recentemente, sobre a integração da comunidade judaica em seu país, no passado. Ressaltou que, durante a Idade Média, quando os judeus da Europa eram expulsos da Inglaterra e da França, os governantes da Polônia, Henrique, o Piedoso, e Casimiro, o Grande, garantiam aos judeus os seus privilégios e a sua segurança, além de prover-lhes autonomia na administração de sua vida. “Foram estas circunstâncias que permitiram o desenvolvimento da cultura judaica na Polônia. O desaparecimento do judaísmo polonês foi uma grande perda não apenas para o mundo judaico, mas para a humanidade, como um todo, e contribuiu para o empobrecimento da própria Polônia. Nós temos a obrigação de restaurar a memória dos judeus poloneses e transmiti-la às futuras gerações”, afirmou o primeiro-ministro.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Muzeum Historii Żydów Polskich

O Museu da História dos Judeus Polacos inagurou hoje a versão inglesa do seu website.
Das galerias com as exposições permanentes deste futuro museu destacamos «O Holocausto dos Judeus Polacos 1939-1944» onde constará vária documentação, relacionada com os guetos de Varsóvia e Łódź e de outras cidades polacas e utilizada para mostrar a vida e morte de milhões de judeus polacos e europeus, antes e durante as acções de extermínio em massa. Nesta galeria estão presentes objectos que representam essa época mas não os horríveis eventos. Ali é proposto uma mostra das situações extremas e dos trágicos momentos que afectaram vítimas e testemunhas dos dois lados do muro.

Unesco muda a designação de Auschwitz

A pedido da Polónia que não quer que as futuras gerações pensem que este país teve algo a ver com o extermínio dos judeus praticado por Adolf Hitler, a UNESCO mudou o nome de «Campo de Concentração de Auschwitz» para «Auschwitz-Birkenau. Campo de Concentração e de Extermínio Nazi-Alemão (1940-1945)».

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Museu Judaico do Rio de Janeiro

Situado na Rua do México, 90 - 1º, no Rio de Janeiro, este museu possui um acervo documental constituído por mais de 300 obras sobre o Holocausto, depoimentos de sobreviventes, roupas e objectos como se pode comprovar pela consulta do seu site.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Nulla rosa est

Este texto foi publicado inicialmente no recomendável Aliterações, Metáforas e Oxímoros e é da autoria de Thiago Cohen.

No dia 27 de Junho de 1908, veio ao mundo em uma cidadezinha chamada Cordisburgo em Minas Gerais, João Guimarães Rosa, filho do comerciante e juíz de paz Florduardo Pinto Rosa, o conhecido seu Fulo, e de dona Francisca Guimarães Rosa, a dona Chiquitinha.

Mas o objetivo aqui não é falar sobre o homem que ficou internalizado em nossas memórias como o autor de Grande Sertão: Veredas, este livro consagrou-o em um país onde sempre existiu um abismo entre a norma culta da escrita e a língua falada. Não foi fácil para parte da intelectualidade compreender, como escreveu o filósofo Vilém Flusser, que Rosa se apoiava tanto no Sertão quanto na biblioteca.

O facto sobre o qual pretendo lhes falar se inicia na década de trinta, mais precisamente em 1938, quando Guimarães Rosa é nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo na Alemanha. Não tardou para que os nazistas exercitassem o seu ímpeto despótico e em 1942 puseram Rosa na prisão de Baden-Baden. É bem verdade que sua permanência na prisão não durou muito (apenas quatro meses), mas ainda assim o acto de colocar um membro da comissão diplomática brasileira na prisão não pode passar incólume. Cícero Dias, cognominado "o pequeno Chagall dos trópicos", que tentou adaptar para a temática dos trópicos a maneira do pintor, gravador e vitralista russo Marc Chagall, sofreu das mesmas agruras.

Lembrei-me deste facto em Yom Hashoá Vehagvurá deste ano, para os que não estão familiarizados, este é o dia do Holocausto e da bravura. Uma data lembrada por judeus do mundo todo. Pois foi neste dia, em uma sinagoga do Rio de Janeiro, que o imortal da Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier, recordou passagens da vida do académico que nos cativou com seus neologismos do sertanejo.

É importante nos recordamos que Rosa, assim como muitos outros não judeus, arriscaram as suas vidas e a de suas famílias quando saíram em defesa dos que eram injustiçadas pelo caudilho alemão. Estes homens eram conscientes de que existe somente uma fé: a da bondade. O médico Guimarães Rosa, pode ter abandonado o ofício da medicina, mas jamais abandonou o ofício de salvar vidas.

Em abril de 1985, Guimarães Rosa e esposa foram agraciados com a mais alta distinção que nós, judeus, prestamos a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém. A concessão da homenagem foi precedida por pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é a única mulher citada no Museu do Holocausto em Israel como um dos 18 diplomatas (ou funcionários diplomáticos) que ajudaram a salvar vidas de judeus. É também o único nome de uma funcionária consular, e não de embaixador ou cônsul, o que só aumenta a dimensão do risco que correu: afinal, ela enfrentou o nazismo sem gozar das imunidades garantidas aos outros diplomatas homenageados, todos de escalões mais altos. Creio que muitos entre nós conhecemos essa mulher como “o anjo de Hamburgo”. Com certeza essa valorosa mulher tinha algo de Hannah Arendt.

Na qualidade de cônsul adjunto em Hamburgo, Guimarães Rosa concedia vistos nos passaportes dos judeus facilitando sua fuga para o Brasil. Os vistos eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, excepto quando o passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a estrela de David que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa. Segundo D. Aracy, que compareceu a Israel por ocasião da homenagem, seu marido sempre se absteve de comentar o assunto já que tinha muito pudor de falar de si mesmo. Apenas dizia: "Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo; e aí vou ter um peso em minha consciência."

Drummond dizia que escrever “é a arte de cortar palavras”, uma definição da qual eu discordo, afinal, depois de ter ‘conhecido’ o grande Guimarães Rosa, para quem cada palavra era especial. Não se pode mesmo simplificar. Concordo com Antônio Cândido que disse certa vez “que sua obra assemelhava-se a do compositor húngaro Béla Bartók. Assim como no trabalho de Bartók, há um quê de rústico na linguagem de Rosa, onde tudo se transforma em um significado universal graças à invenção de uma linguagem que não existe. E aqui se poderia aplicar o enunciado latino nulla rosa est, usado pelo Abade Abelardo no século II e depois pelo lingüista Humberto Eco na ocasião do lançamento do livro Em nome da Rosa, para se referir não só as coisas desaparecidas, mas também as inexistentes. Para essas coisas valem os nomes.
*Este texto é uma homenagem ao cinquentenário do livro Grande Sertão: Veredas e ao célebre João Guimarães Rosa.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

É interdito esquecer, transmitir é um dever

terça-feira, 19 de junho de 2007

A terra continua a esconder vítimas do Holocausto

O jornal Público (19/06/07) traz no suplemento P2 duas páginas sobre um assunto que já tinha sido noticiado aqui e que reproduzidos de seguida. As fotografias são da autoria de Gleb Garanich/Reuters.

Foi descoberta na Ucrânia uma vala comum com os restos de milhares de judeus, mortos pelos nazis na II Guerra. As autoridades judaicas querem fazer ali um monumento.

O SEGREDO QUE SE ESCONDIA NO PRADO
As pessoas que vivem em Gvozdavka-1 (a cerca de 300 km a sul de Kiev) sabem que houve ali um campo de concentração durante a II Guerra, onde foram mortas pelo menos 5000 pessoas. Mas só em Abril surgiram provas indesmentíveis, quando a escavação para instalar tubagens de gás pôs a descoberto uma grande quantidade de ossos num prado onde os habitantes costumam apascentar as vacas.

«ATIRÁVAMOS-LHE BATATAS E PÃO»
Alguns dos judeus levados para aquele campo de concentração foram executados, outros morreram de fome e doença. «Eles punham a mão através da rede que cercava o campo, implorando comida. Atirávamos-lhes batatas e pão», recorda Olga Tomachenko, que hoje tem 78 anos. Só em Gvozdavka-1 pode haver mais quatro valas comuns de vítimas dos nazis e pensa-se que existem outras 700 na Ucrânia.
DEVOLVER DIGNIDADE ÀS VÍTIMAS
A descoberta levou a Gvozdavka-1 muitos rabis. Remexiam o campo, em busca de ossos de vítimas do Holocausto, para os voltar a enterrar, cuidadosamente, dizendo uma oração. Vestidos com grossas casacas pretas tradicionais e chapéus de aba larga, tentam recuperar a dignidade das vítimas. «O que vi aqui vai ficar comigo para o resto da vida», disse à Reuters o rabi Shlomo Baksht.
DEIXAR OS MORTOS EM PAZ
Seis milhões de judeus foram mortos pelos nazis durante a II Guerra Mundial. Mas nem todos foram cremados: os restos de milhões dessas vítimas do Holocausto enterrados em campas rasas na Europa de Leste e são revelados quando se fazem escavações. No caso de Gvozdavka-1, as autoridades judaicas não querem desenterrar as vítimas e tentar identificá-las – o que até seria possível, pois há registos, em arquivos israelitas e em Moscovo, das pessoas que para lá foram enviadas para morrer.
«Queremos resguardar o local. Estes judeus são santos, deixá-los estar onde estão» disse Yakov Ruza, rabi do Instituto de Medicina Forense L. Greenberg, em Israel, Para os historiadores estas descobertas revelam o assassinato sistemático feito pela brigada Einsatzgruppe C. «Todas as cidades mais importantes da Ucrânia tinham um ghetto e valas comuns», disse à Reuters o historiador Viktor Korol.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Campo de Concentracão de Auschwitz-Birkenau 2001

Na Primavera de 2001 Paulo Frank visitou o campo de extermínio de Auschwitz. São os apontamentos e as memórias desse local que agora aqui partilha connosco:
Libertos mas desorientados, perguntaram: "Para onde iremos?" E a resposta seca do soldado foi: "Olhem para o norte, para o sul, para o leste e para o oeste: em qualquer lugar não quererão vocês!" Então, esqueléticos mas com uma chama viva em seu olhar, contemplam uma colina onde uma multidão de sobreviventes na mesma situacão canta: "Yerushalayin Shel Zahav Ve-Shel NechoshetVe-Shel Or", que quer dizer "Jerusalém de ouro, de luz e de bronze, sou o violino para todas as tuas cancões". Sim, em Jerusalém eles seriam estabelecidos, cumprindo-se profecias milenares. E assim eu assistia emocionado as últimas cenas do filme "A Lista de Schindler", de Steven Spilberg, que conquistou 8 Oscars na Academia de cinema, tornando-se o mais famoso de todos os filmes do tema Holocausto, a respeito do qual tantos livros lera.
Vivendo na Finlândia desde 1999, quando planejei minhas férias, incluí uma visita à Polônia, precisamente ao campo de concentracão de Auschwitz-Birkenau, chamado de o maior cemitério do mundo e memorial do martírio de judeus, poloneses políticos, ciganos e outras minorias perseguidas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Antes de ingressarmos no local, assiste-se a um documentário de 20min. que mostra as atrocidades cometidas pelos nazistas, e muito do que vimos projetado veríamos ao vivo momentos depois. A duracão da turnê é de 3 horas e, surpreendenetemente, há milhares de pessoas visitando o campo diariamente - inclusive grupos de Israel e mesmo da Alemanha, o país que mais colabora para a manutencão do lugar, que foi estrategicamente escolhido pelos nazistas uma vez que se situa no centro da Europa, quase a mesma distância a ser percorrida pelos trens que faziam a deportacão de diversos países.

Logo à entrada do campo de Auschwitz depara o visitante com a irônica inscricão em ferro: "Arbeit macht frei" (O trabalho liberta) e visitando os diversos prédios de dois andares pode-se ver, através de gigantescas vitrinas, exposicões de malas portando ainda os nomes de seus donos, de roupas, de sapatos (uma somente de sapatos de crianca), de óculos, de escovas, de cabelos (há uma amostra do tecido feito de cabelos) e, além de outras ainda, a dos chales de oracão de judeus, o que me emocionou e fez-me pegar a máquina fotográfica.

A visita continuava ao campo de Birkenau, a 5km dali, cuja estrada de ferro - com seus trilhos originais - atravessa um prédio com sua torre de vigia (foto), lugar conhecido de filmes e documentários. A perderem-se de vista, a partir dali, barracões de madeira e de alvenaria com suas respectivas guaritas e cercas antes eletrificadas. Visitamos diversos e vimos as camas onde se amontoavam os prisioneiros. Muitos prédios foram preservados em ruínas, com opropósito de mostrar que foram destruídos de forma proposital antes da chegada dos russos e dos americanos para liberarem o campo.

Em dado momento fiquei para trás do meu grupo. Estava no "lugar de selecão" junto aos trilhos (foto), devidamente ilustrado com ampliacões de antigas fotos, as quais se vê em muitos lugares. Logo ao desembarcarem, um médico nazista examinava superficialmente a pessoa e seu dedo polegar para cima ou para baixo determinava o seu destino: os trabalhos forcados ou imediatamente para as câmaras de gás... E assim milhões de homens, mulheres e criancas foram direto para as câmaras de gas, julgando que eram conduzidas a um"banho desinfetante".

Vimos réplicas das câmaras e também dos fornos crematórios, uma vez que os originais foram cuidadosamente destruídos para remover as evidências das atrocidades perpetradas pelos nazistas. Em volta dos prédios das câmaras de gás, para efeito de propaganda, havia um belo jardim florido. Vimos no mesmo local ruínas da casa do diretor do campo, e o local onde seus filhos brincavam como se nada estivesse acontecendo, retratados fielmente no filme de Steven Spilberg.Finalizando a turnê, nosso guia nos conduziu a um grande monumento em memória dos mortos, no fundo do campo, mencionando que caminhávamos sobre as cinzas de milhões de pessoas. No monumento, inscricões nos principais idiomas dos prisioneiros. Fiquei feliz por não encontrar nenhuma inscricão em português ou mesmo em finlandês! Segundo contava o meu saudoso sogro, o presidente da Finlândia, tendo como pretexto Obadias, vs. 11 a 14, não entregou os seus judeus aos nazistas.

Deixando o significativo e sinistro local, andei sozinho de volta à entrada do campo naquela tarde ensolarada na qual soprava um leve vento de primavera. Ao longo da caminhada, o texto bíblico de Isaías 53, que se refere ao sofrimento e morte do Messias, Jesus, como nunca sentia aplicacão à morte do povo judeu naquele e em outros campos de concentracão: ... desprezado... o mais rejeitado... de dores... oprimido... traspassado... moído... pisado... humilhado... como cordeiro levado ao matadouro... como ovelha muda perante seus tosquiadores (no caso, seus algozes) não abriu a sua boca (segundo sobreviventes, muitos morriam calados). Mais tarde, comentando com um estudioso da Bíblia o facto de o livro de Isaías ter-me vindo estranha e tão fortemente à lembranca em Birkenau, falou-me que o texto que pela primeira vez eu associava também ao extermínio dos judeus de fato tem sido aplicado ao holocausto, o que eu desconhecia até então.E estranhei também o sentimento de paz que me inundou naquela visita, paz provinda da fé de que o Messias certamente Se revelou àquelas pessoas antes de sua morte e as recolheu para Si. Foi uma experiência e tanto, somada a tantas outras, como à visita ao Museu Anne Frank em Amsterdam, à dramatizacão que fizemos do seu Diário, tendo sido assistida por um sobrevivente de Auschwitz, e a tantos livros, reportagens, depoimentos e filmes acerca do Holocausto. Algo de que não me esqueco é a declaracão de um rabino na TV: "A maior vinganca contra Hitler é o facto de judeus viverem actualmente na Alemanha e terem suas sinagogas, museus, associacões e monumentos. De facto, impressionei-me ao visitar Berlim ao ver uma grande placa à porta de uma estacão de metrô onde eram enumerados os diversos campos de concentracão nazistas e os dizeres "Não esquecamos".

Por certo o que de mais recente li sobre o Holocausto seja isto: Pelas cidades de toda a Alemanha, pequenas placas metálicas estão sendo implantadas nas calçadas diante de determinadas casas. Um artista alemão criou-as e chamou-as "pedras de tropeço". Em cada uma delas há a inscricão do nome dos antigos proprietários da casa confiscada pelos nazistas, as datas de nascimento e também as datas e locais onde morreram. Gunter Deming, o criador dessas placas, declarou: "Podemos abrir um livro e ler a respeito dos seis milhões de judeus exterminados, juntamente com cinco milhões de outras pessoas, mas mesmo assim talvez não possamos chegar à profundidade do que ocorreu. Mas se, ao ver a placa, nos lembramos de que um homem ou uma mulher - ou mesmo uma família - que viveram naquela casa específica morreram no Holocausto, é muito diferente!" "A pena de Anne Frank foi mais poderosa do que a espada de Hitler", alguém sabiamente escreveu. Outro declarou: "Os judeus foram exterminados por um homem que, por querer se adorado como deus, odiava principalmente o povo de Deus."E, finalizando, recomendo a leitura do livro "Exodus", de Leon Uris, o qual li há precisamente 40 anos, perdurando o meu grande amor pelo povo judeu desde aquele longínquo ano de 1966.